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Capítulo 25 do livroAnais da III Mostra dos Trabalhos de Conclusão de Curso da Especialização em Vigilância Laboratorial em Saúde Pública

Prevalência de doenças crônicas não transmissíveis em pacientes com infecção por SARS-cov-2 no estado de são paulo, entre julho de 2020 e julho de 2021.

  • Viviane Alves de Lima
DOI10.53934/101025-28 min de leitura

Resumo

O SARS-CoV-2 é um betacoronavirus responsável pela pandemia de COVID-19, que causa sintomas respiratórios nas vias áreas superiores e inferiores, ocasionando um quadro gripal, que pode evoluir para síndrome respiratória aguda grave (SARS). Os casos mais graves têm sido reportados em idosos e indivíduos com doenças crônicas não transmissíveis. O objetivo foi avaliar a prevalência de comorbidades, e suas associações, em pacientes com diagnóstico positivo para infecção por SARS-CoV-2. Esse estudo utilizou dados secundários dos casos recuperados e óbitos entre julho de 2020 a julho de 2021, do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe) do estado de São Paulo, foram analisados os parâmetros sexo, idade e comorbidades (cardiopatias, diabetes e obesidade). Foram incluídos no estudo 149.122 casos de ambos os sexos, sendo 93.888 (63%) recuperados e 55.224 (37%) óbitos. A prevalência de comorbidades nos recuperados foi de 29,0% (27.145) cardiopatias; 17,0% (15.980) cardiopatias/diabetes; 13,5% (12.710) diabetes; 7,8% (7.321) obesidade; 4,1% (3.852) cardiopatias/obesidade; 4,3% (4.096) cardiopatias/diabetes/obesidade; e 24,3% (22.784) sem comorbidades. E nos óbitos foi de 27,8% (15.332) cardiopatias; 22,0% (12.154) cardiopatias/diabetes; 13,0% (7.203) diabetes; 6,0% (3.305) obesidade; 4,6% (2.511) cardiopatias/obesidade; 6,4% (3.531) cardiopatias/obesidade/diabetes; e 1,8% (1.012) diabetes/obesidade e 18,4% (10.176) sem comorbidades. A presença isolada ou associada à diabetes, obesidade e cardiopatias exerceu uma relação negativa na evolução do quadro clínico. Este estudo poderá contribuir com informações úteis para a implantação de medidas epidemiológicas adequadas, e para a elaboração de políticas públicas no contexto de prevenção e monitoramento das doenças crônicas não transmissíveis.

INTRODUÇÃO

Em dezembro de 2019, o mundo foi surpreendido com a informação da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre casos de pneumonia de etiologia desconhecida na província de Hubei, na República popular da China (WHO, 2020). No ano seguinte foi identificado o agente etiológico, o SARS-CoV-2, iniciando a pandemia de COVID-19, desafiando a saúde pública mundial. Essa doença causa sintomas respiratórios, nas vias áreas superiores e inferiores, que pode evoluir para síndrome respiratória aguda grave (SARS) (BOLSONI-LOPES et al., 2021). O SARS-CoV-2, vírus RNA fita simples positivo, apresenta na superfície a proteína Spike que invade as células do coração, pulmão, tecido adiposo e gastrointestinal, que possuem em sua membrana o receptor para a enzima conversora de angiotensina II (ECA2), causando intensa inflamação com liberação de citocinas, podendo desencadear uma resposta imunológica que pode contribuir para um prognóstico desfavorável (BOLSONI-LOPES et al., 2021). Os fatores de risco no agravo por COVID-19 estão relacionados à idade avançada (acima de 60 anos), sexo masculino, presença de comorbidades, estado imunocomprometido, obesidade e estilo de vida não saudável (SILVA et al., 2020; PIETROBON, et al.,2020; GAO et al., 2021; SHAH et al., 2021). As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são um conjunto de doenças de causas múltiplas e prognóstico incerto, são as principais comorbidades dos pacientes com COVID-19, e responsáveis pelo agravamento da condição clínica, aumento no tempo de internação e nas taxas de mortalidade (MALTA et al., 2021; NUNES et al., 2021). Entre as DCNT podemos destacar a doença cardiovascular, pulmonar, diabetes e obesidade (BOLSONI-LOPES et al., 2021). A infecção pelo SARS-CoV-2 associada às comorbidades, ocasiona um aumento na prevalência de casos graves, devido ao comprometimento do sistema imune e da capacidade do hospedeiro de se defender de infecções causadas pelo vírus, contribuindo para um mau prognóstico e evolução na mortalidade por COVID-19 (GAO et al., 2021; SHAH et al., 2021; BRANDÃO et al., 2020; EJAZ et al., 2020; NG et al., 2021; FANG et al., 2020). Desta forma, a análise da inter-relação do potencial de agravamento nos pacientes com comorbidades e a infecção pela COVID-19, permite discutir o impacto causado pela pandemia na qualidade de vida de pacientes com DCNT, e como esses dados podem ser utilizados como medidas de auxílio e prevenção da saúde (GAO et al., 2021; SHAH et al., 2021). O objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência de comorbidades em pacientes do estado de São Paulo, com diagnóstico positivo para infecção por SARS-CoV-2, para compreender a progressão dos riscos associados à morbimortalidade.

MATERIAL E MÉTODOS

Foi realizado um estudo descritivo, retrospectivo, utilizando dados secundários do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe) do estado de São Paulo (SEADE, 2020). Os dados são de domínio público e não necessita de aprovação de Comissão de Ética em Pesquisa. Foram incluídos os casos de recuperados e óbitos entre Julho de 2020 e Julho de 2021. Foram analisados os parâmetros sexo, idade e comorbidades (cardiopatias, diabetes e obesidade). Foram excluídos casos com ausência de algum dado epidemiológico necessário para a execução deste trabalho, como idade, sexo e informação sobre comorbidade prévia. A análise estatística dos dados foi realizada pelo Excel versão 2010 e pelo Epi Info versão 3.5.3.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram analisados 149.112 casos, destes, 93.888 (63%) evoluíram para recuperação e 55.224 (37%) para óbito. Neste trabalho analisamos as comorbidades: cardiopatias, diabetes e obesidade e suas associações. A idade média dos recuperados foi de 55 anos para homens e 60 anos para mulheres. Nos óbitos a idade média foi de 60 anos para homens e 65 anos para mulheres (Figura 1). A idade acima de 60 anos foi considerada um fator de risco para a infecção, pois ocorre diminuição da resposta imunológica, e a presença de comorbidades eleva as chances de formação de trombose microvascular, aumentando a gravidade da doença (BATSCHAUER et al., 2020). O número de pacientes recuperados e óbitos com e sem associação entre comorbidades foi maior no sexo masculino, sendo estatisticamente significante (p<0.0000001). O sexo masculino apresenta maior fator de risco para a infecção quando comparado ao sexo feminino, sugerindo uma diferença na resposta imune, pois a presença de hormônio androgênio, concentrações mais baixas de anticorpos anti-SARS-CoV-2, além da maior exposição e progressão da doença seriam caracterizadas como maior causa de mortalidade pela COVID-19 (MONTOPOLI et al., 2020) (Figura 2). A prevalência de comorbidades nos recuperados foi de 29,0% (27.145) cardiopatias; 17,0% (15.980) cardiopatias e diabetes; 13,5% (12.710) diabetes; 7,8% (7.321) obesidade; 4,1% (3.852) cardiopatias e obesidade; 4,3% (4.096) cardiopatias, diabetes e obesidade; e 24,3% (22.784) sem comorbidades (Figura 3A).

Nos recuperados a prevalência de cardiopatias isolada e associada foi maior em comparação com as demais comorbidades.

Nos óbitos, a prevalência foi de 27,8% (15.332) cardiopatias; 22,0% (12.154) cardiopatias e diabetes; 13,0% (7.203) diabetes; 6,0% (3.305) obesidade; 4,6% (2.511) cardiopatias e obesidade; 6,4% (3.531) cardiopatias, obesidade e diabetes; e 1,8% (1.012) diabetes e obesidade e 18,4% (10.176) sem comorbidades (Figura 3 B). Esses dados mostraram que a prevalência de óbitos ocorreu no grupo de cardiopatia isolada e cardiopatia associada ao diabetes. O estudo não apresentou diferença significante na prevalência entre os grupos de obesidade isolada e associada a outras comorbidades. O monitoramento deficiente da glicemia pode levar a falhas no sistema imunológico e potencializar o aparecimento de mediadores pró-inflamatórios como proteína C reativa, glicoproteína ácida e o fibrinogênio, além de citoquinas como fator de necrose tumoral e interleucinas, favorecendo danos celulares, e piora do estado do paciente com COVID-19 (CERIELLO et al., 2020; PICCIRILLO et al., 2004, GROSS et al., 2002). Os pacientes com diabetes do tipo 1 apresentam 3.5 vezes, e do tipo 2 têm 2.03 mais riscos de mortalidade pela COVID- 19, pois SARS-CoV-2 pode desencadear a autoimunidade das ilhotas de Langerhans, quando o vírus se liga aos receptores ECA2, possibilitando o desenvolvimento de diabetes (SINGH et al., 2020).

A obesidade está associada com a intensidade dos fatores de risco quando relacionadas a outras doenças crônicas, como diabetes e cardiopatias. Os resultados encontrados foram semelhantes ao estudo de Silva, et al., 2020, que apresentou prevalência obtida de 8% para obesidade.

Os indivíduos com sobrepeso podem desenvolver maior carga viral e demora na resolução do processo infeccioso, por apresentar uma redução da resposta imune, com menor ação de fagocitose por macrófago, prejudicando o processo de apresentação de antígeno e desenvolvimento de anticorpo, contribuindo para o desfecho grave da infecção, com a amplificação do estado inflamatório, danos ao sistema respiratório, cardiovascular e no metabolismo dos carboidratos e na formação de trombose (BOLSONI-LOPES et al., 2021; MARTELLETO et al., 2021). As cardiopatias estão associadas à gravidade da doença e prognóstico desfavorável à COVID-19, devido ao processo inflamatório que aumenta a liberação de troponina causando lesões e espessamento do músculo cardíaco (SILVA et al., 2020). A introdução do SARS-CoV-2 em células miocárdicas reduz a expressão de ECA2, que possui propriedade anti-inflamatória e anti-trombótica, que permitem a liberação de mediadores pró-inflamatórios e apoptóticos, como fatores de necrose tumoral, que desestabiliza a placa aterosclerótica do epitélio dos vasos e liberando êmbolos nos pacientes com COVID-19. A cardiopatia está associada a tres vezes mais chances de infecção grave e 11 vezes a mortalidade (SHAH et al., 2021; SILVA et al., 2020).

CONCLUSÕES

Os resultados encontrados sugerem que indivíduos com menos de 60 anos de idade tem uma maior probabilidade de recuperação da COVID-19.

Os pacientes do sexo masculino com COVID-19 apresentaram maior probabilidade para o estado grave da doença.

A cardiopatia demostrou maior número de casos recuperados e óbitos, e apresentou resultado relevante quando associada à diabetes, embora a obesidade esteja mais comumente ligada a outras comorbidades.

A presença isolada ou associada à diabetes obesidade e cardiopatias exerceu uma relação negativa na evolução do quadro clínico do paciente. Este estudo poderá contribuir com informações úteis para a implantação de medidas epidemiológicas adequadas, e para a elaboração de políticas públicas no contexto de prevenção e monitoramento das doenças crônicas não transmissíveis.

Referências

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Acesso aberto sob a licença CC BY 4.0.

Como citar

ABNT
LIMA, Viviane Alves de. PREVALÊNCIA DE DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS EM PACIENTES COM INFECÇÃO POR SARS-COV-2 NO ESTADO DE SÃO PAULO, ENTRE JULHO DE 2020 E JULHO DE 2021.. In: Anais da III Mostra dos Trabalhos de Conclusão de Curso da Especialização em Vigilância Laboratorial em Saúde Pública. Agronfy, 2022. ISBN 9786500475319. DOI: https://doi.org/10.53934/101025-2.
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Vancouver
Lima VA. PREVALÊNCIA DE DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS EM PACIENTES COM INFECÇÃO POR SARS-COV-2 NO ESTADO DE SÃO PAULO, ENTRE JULHO DE 2020 E JULHO DE 2021.. In: Anais da III Mostra dos Trabalhos de Conclusão de Curso da Especialização em Vigilância Laboratorial em Saúde Pública. Agronfy; 2022. doi:10.53934/101025-2
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